“As moedas não são raras, eu é que as tenho quase todas.”
Tio Patinhas
Esta frase genial, escrita por um dos autores ao servico da Disney, faz-me pensar se foi ele que leu Foucault, ou se foi Foucault que o leu a ele – na banda desenhada do Tio Patinhas.
E’ natural que a maioria das pessoas não veja o alcance filosofico da frase, e, provavelmente, nem o seu autor o terá visto. Eu, que conheço a frase ’a quase 30 anos, so’ o vi ontem – 02/09/2008 -, quando a frase me veio ‘a memoria numa inspiração genial causada por uma discussao no sitio do Tagus – um grupo de amigos residentes na Second Life -, sobre um pedido de oração feito na Second Life, por um norte americano potencial vitima do furacão Gustav, que, entretanto, nada de especial fez em Nova Orleães.
Michel Foucault foi dos mais importantes pensadores do século XX. Apesar da sua formação em Historia, os seus escritos tiveram consequencias profundas na Filosofia. De tal ordem que ele, que recusava o rotulo de “pos-moderno”, é considerado, por muitos, como a personificação do Pos-Modernismo.
Dos muitos contributos que Foucault nos legou, é possivel que o mais significativo seja o conceito de “Discurso da Epoca”.
A sua formação em Historia foi sem duvida utilissima para o intuir. Olhando para as sociedades ao longo dos tempos, verificou que para cada tempo existia um discurso dominante, para uma determinada sociedade. Obviamente, o discurso dominante dominava o contexto cultural das pessoas e servia os interesses de quem detinha o poder, fosse este secular ou religioso. Podem-se dar inumeros exemplos da aplicação do “Discurso da Epoca”, mas acho que o mais magistral, por, curiosamente, ser paradoxalmente franco e honesto, terá sido dito pelo ministro da propaganda NAZI, Dr Joseph Goebbels – 2 versoes:
“Repita-se uma mentira 1000 vezes e tornar-se-á na verdade”;
“Repita-se uma mentira frequentemente que as pessoas acreditarão nela.”
Curiosamente, um grupo, que apoia a independencia do Tibete, afirma que foi Mao Tsé-Tung quem a disse! Enfim para o “Discurso da Epoca” deles esta ideia é mais conveniente…
Os seres humanos preferem encaixar do que contestar. Um cinico diria: ”é muito mais comodo”. Mas o funcionamento do nosso cérebro leva-nos a isto, inconscientemente, por uma questão de sobrevivencia. Ao encaixarmos na sociedade a probabilidade de estarmos isolados diminui. E o encaixe na sociedade dá-se através da adesão ao “Discurso da Epoca”, feita ao longo da vida de forma inconsciente. Assim, tendemos a reproduzir, em maior ou menor grau, os gestos e as palavras dos que nos rodeiam. E quanto mais isolados estivermos doutras culturas – i.e. de “Discursos da Epoca” doutras sociedades – maior será a cristalização dos signos culturais do nosso contexto, nas nossas vidas.
Para lutar contra a cristalização, e o consequente pensamento acritico submissivo perante o discurso dominante, devemos munir-nos de muita informação e analisá-la criticamente. Se a isto acrescentarmos a exposição a outros paradigmas culturais melhor ainda! Uns choques culturais são uma optima forma para alguém perceber que, a visão do mundo onde foi criada, não é a unica. E se a pessoa tiver formação e capacidade critica suficientes, ainda será capaz de trazer para o consciente os seus paradigmas culturais. Ao faze-lo, poderá criticá-los e até alterá-los!
Então e a frase do Tio Patinhas?
Bem, a frase ilustra como uma sociedade pode viver na ilusão, se não tiver acesso a um conjunto de dados. Isto é vive-se na mentira.
Naquele caso, os numismatas acreditavam que determinadas moedas eram raras, por isso atribuiam-lhes grande valor. No entanto, as moedas existiam em grande numero, mas nas mão do Tio Patinhas, que as guardava na sua Caixa Forte gigante. A historia segue um rumo curiosissimo. Ao perceber que afinal haviam bastantes moedas, o numismata diz ao Pato Donald para ele esconde-las, pois iria provocar a derrocada do mercado. Ou seja, era melhor que a sociedade continuasse a acreditar na mentira, do que descobrir a verdade… E assim o “Discurso da Epoca” continuou protegido aplicando o mote de Goebbels ‘aquelas moedas…
Então e o furacão?
O caso do Gustav é um exemplo de como o ”Discurso da Epoca” dum determinado pais – EUA – leva a reacçoes doutro tipo, consonantes com o “Discurso da Epoca” da sociedade dos receptores – neste caso a portuguesa. Os receptores ficaram impressionados com o apelo dum americano, para rezarem para evitar uma catástrofe natural. Sendo portugueses, a cultura em que foram criados fá-los reagir de forma emocional; por outro lado, a maioria dos portugueses, quer queiram quer não, ainda tem uma visão Catolica da Religião. Com base nestes 2 elementos do seu “Discurso da Epoca”, ficaram a pensar no assunto, ou até rezaram. E o TP chegou a escrever um artigo, não so’ a descrever o evento, mas também a apelar ‘a “congregação taguense” para se juntar ‘a oração. Mas quem pediu foi um americano, e no “Discurso da Epoca” dos EUA, Deus “aparece por todo o lado”, desde que seja para proteger os EUA, os outros que se danem – e se morrerem perfazendo 1/3 da humanidade melhor ainda!
Lembro o mote dos EUA: “Deus abençoe a América”.
Parece muito bem rezarmos por quem nos pede, se quem nos pode estiver em dificuldades. Mas e se as dificuldades foram causadas pelo proprio governo? E se quem nos pede é dum pais que leva a catástrofe a muitos mais milhoes? No entanto, os media, ao serviço do ”Discurso da Epoca” dos EUA, ampliam uma eventual desgraça, que poderá ocorrer em solo dos EUA, omitindo por completo aquelas que, estando a ocorrer naquele momento noutros paises – algumas por causa dos proprios EUA -, matam muito mais pessoas. Porque razão uns hão-de ser filhos e outros enteados? O problema é este!
Por acaso, algum dos envolvidos naquela situação se lembrou de rezar pelas vitimas da monção na India?
Então qual é a relação entre a frase do Tio Patinhas e o exemplo do furacão?
Se considerarmos os detentores do poder informativo como sendo o Tio Patinhas, a analogia fica evidente. A eventual catástrofe, em Nova Orleães, seria tão mais importante quanto mais escondidas, nas redacçoes ou corredores do poder, estivessem aquelas que eram mesmo reais…
Moral da historia
Sempre que estiverdes a repetir uma “determinada verdade” imposta por governos, media, interesses “da moda”, ideologos, conglomerados capitalistas, chefes religiosos; apesar de existirem outros contextos ou outros elementos que desconheceis; outras versoes ou mesmo provas em contrário; estareis, apenas, a perpetuar o mote de Goebbels!
Pior ainda, se, corporizando o “Discurso da Epoca”, vos tornardes agentes dos supramencionados, ao atacardes quem pensar diferente!
PS Uma questão para os portugueses:
Foi para sermos um rebanho acritico, que engole toda a especie de forragem, imposta pelos detentores do poder, que se fez o 25 de Abril?
[...] Citação favorita [...]
Concordo ctg! E mais vale por vezes cometer “uma besteira” (e obviamente tb saber pedir desculpa) do que ficar calado toda a vida…só porque dá jeito e assim não magoamos ninguém!!! não vale a pena…ela nem vai entender…. Este sentido infinito do compromisso não pertence à nossa cultura nem à nossa tradição. O velho macaco do Vínicius diria…infinito sim…enquanto dura!
A citação do Tio Patinhas é fabulosa! Parabéns…e obrigado por me voltares a recordá-la!
Um abraço
………a perpetuar o mote de Goebbels!
Fokas disse:….…. Este sentido infinito do compromisso não pertence à nossa cultura nem à nossa tradição. O velho macaco do Vínicius diria…infinito sim…enquanto dura!
Também concordo;
Isto significa que ” macaco do Vínicius”, “macaco do Vínicius”… 1000 vezes …” macaco do Vínicius”. Obviamente este repetição da verdade ” macaco do Vínicius” significa que realmente na sua cultura e tradição Vínicius é um macaco.
Fokas: você também tem suas moedas guardadas.
Conclusão; falaste besteira ou não entendeu o texto tão bem escrito.
abraços duplos:
Caro Fernando,
Quase que me apanhavas em falso…mas porque chamaria eu… macaco ( no sentido que tu lhe deste..e não naquele que utilizei de tipo astusto e inteligente) ao branco mais preto do Brasil?.
Mas o português é uma língua traiçoeira…e nisso tens alguma razão! Mas nunca me passou ela cabeça ofender um brasileiro!!!Pá!
Mas se ofendi…..peço desculpa pública JÁ!
“A vida é a arte do encontro”.
Vínicius de Moraes
Um abraço para Manchester e outro para algures no Brasil!
Fokas; sem problemas maiores. Você não me ofendeu..NUNCA…. Estranho: um blogueiro finge a dor/ tão desesperadamente/ que entre tapas e beijos/ falamos pela nossa emoção/:
As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram….(MANCHESTER)
DEUS 23 de Fevereiro de 1994:
Levaram Deus a todos os lugares da terra e fizeram-no dizer: “Não adoreis essa pedra, essa árvore, essa fonte, essa águia, essa luz, essa montanha, que todos eles são falsos deuses. Eu sou o único e verdadeiro Deus.” Deus, coitado dele, estava caindo em flagrante pecado de orgulho.Deus não precisa do homem para nada, excepto para ser Deus.Cada homem que morre é uma morte de Deus. E quando o último homem morrer, Deus não ressuscitará.Os homens, a Deus, perdoam-lhe tudo, e quanto menos o compreendem mais lhe perdoam.Deus é um silêncio do universo, e o homem o grito que dá um sentido a esse universo.
Nunca Hitler, Stalin, Salazar, Vargas…etc..TIO PATINHAS..etc
Fokas por mais estranho, que seja nossa memória católica, somos assim… entre tapas e beijos.
oooppss saí do texto.
braços